MINHA GEOLOCALIZAÇÃO, MINHAS REGRAS? DICAS PARA UMA RECUPERAÇÃO ECONÔMICA ROBUSTA

MINHA GEOLOCALIZAÇÃO, MINHAS REGRAS? DICAS PARA UMA RECUPERAÇÃO ECONÔMICA ROBUSTA

By Edson Agatti
May 8, 2020 23:21
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Geolocalização



Por Claudio Shikida

A tecnologia nos ajuda na pandemia? Depende? A tecnologia nos deu a possibilidade de acompanhar dados reais das pessoas como. Por exemplo, o gráfico a seguir, de mobilidade das pessoas, tem sido popular nas notícias. Não é à toa, já que é uma bela ferramenta para auxiliar na tomada de decisões públicas ou privadas.

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Este tipo de base de dados só é possível por conta da tecnologia de geolocalização, a mesma que permite a usuários encontrar seu celular perdido e que também gera sempre acalorados debates sobre o uso de informações privadas. O ponto central é sempre o mesmo: confiança. Como assim?

Bem, no livro Trust Revolution, Todd Henderson e Salen Churi buscam desvendar o papel da confiança ao longo da história humana e chegam a um dos aspectos mais interessantes que a tecnologia nos proporcionou nos últimos anos: o surgimento dos micro-reguladores. Citando:

Microregulators work differently. They regulate one or a narrow range of things based on a global perspective. While Uber uses some localization to solve location-specific problems (e.g. special tollways in different cities), it builds and improves its data globally. And because one opts in to a microregulator, there’s true competition. If you don’t like Uber, you’ll try Lyft or Via. You can vote out a microregulator in real time by deleting its app.

O livro, publicado em 2019, obviamente, não previa a pandemia, mas seus autores já estavam cientes dos custos e benefícios do uso massivo de dados (big data) na economia que vimos surgir ao longo dos últimos anos. Uma das variáveis-chave destes aplicativos é a localização (ou, caso prefira, a geolocalização).

A confiança, no caso da micro-regulação, tem muito a ver com a localização. O consumidor confia que receberá sua pizza no endereço indicado e o entregador confia que lá encontrará o mesmo. Mas com a geolocalização vêm grandes responsabilidades, diria o tio Ben ao sobrinho Peter Parker, numa popular tradução do famoso dito: não existe almoço grátis.

A mesma geolocalização que estimula a prosperidade econômica de famílias também permite a governos autoritários a perseguição mais eficaz de seus inimigos políticos. Não é questão de capacidades estatais, mas de prioridades estatais, como bem disse Bryan Caplan recentemente (aqui e aqui). Acha que não? Lembre-se do que fez Hugo Chávez – bem antes dos aplicativos, em 2004 – com seus eleitores. Prioridades importam…

Os aplicativos, que Henderson e Churi, corretamente, percebem como uma saudável competição ao modelo tradicional de regulação, por meio do incentivo que gera à maior eficiência dos governos, não funcionam tão bem sob o distanciamento social implantado, de uma forma ou de outra, em praticamente todo o mundo nestes tempos de pandemia.

Os políticos da República Popular da China, famosos por sua elevada capacidade estatal de vigiar cada cidadão do país de forma muito mais intrusiva do que Chávez, não priorizaram a transparência nas informações da pandemia nem aos seus cidadãos, nem ao mundo (um detalhado histórico aqui) e mostraram que a geolocalização, sem concorrência privada (os micro-reguladores de Henderson e Churi), corroboram o famoso dito de Lord ActonPower tends to corrupt, and absolute power corrupts absolutely. Você confia nas estatísticas de mortalidade chinesas? Duvido.

Obviamente, a economia irá se recuperar em algum momento e, pelo que estamos vendo cada vez mais, prioridades estatais serão muito importantes para sua retomada mais robusta. A pandemia nos mostra como o dinamismo humano é, como dizia Julian Simon, realmente, nosso último recurso.

Exemplos não faltam. Congressos – outrora caríssimos e raros – estão sendo realizados a um custo mais baixo e com maior frequência. Concursos – atraentemente renomeados como Desafios – incentivam a ambição humana em prol de um bem maior: a cura da pandemia. Ah, e, como último exemplo, ainda estamos aprendendo a lidar com o teletrabalho, mas alguém duvida que o recurso não possa fazer parte do menu de opções dos serviços médicos?

Tudo isto me leva a crer que a retomada econômica será mais robusta em sociedades que se permitam empreender de forma mais livre. Claro, a ajuda do governo é essencial neste aspecto. Como alerta Adam Thierer em seu novíssimo Evasive Entrepreneurs and the Future of Governance: How Innovation Improves Economies and Governments:

(…) technological innovation does involve tradeoffs and downsides, and regulation is sometimes needed to address serious risks associated with new technologies.

Em outras palavras, é preciso ter prioridades. Um governo com boas instituições (as famosas regras do jogo de Douglass North) poderia ter como prioridade estatal uma estratégia bem estruturada para a retomada econômica. Uma estratégia que flexibilize os mercados para que a sociedade possa se adaptar mais rapidamente a situações de crise (a pandemia é apenas um exemplo). A regulação deve ser inteligente (Paul Romer fala um pouco do problema neste texto).

Creio que tal estratégia deve estimular uma regulação que não sufoque a concorrência dos micro-reguladores privados e deve usar a geolocalização de forma compatível ao que se espera de um governo comprometido com as liberdades individuais. Parece-me que a confiança citada no início do texto será variável central neste cenário. Certamente não é um desafio trivial.

(*) Agradeço ao Edson Agatti Lima pelos comentários.

Artigo original publicado no Linkedin.

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