PANDEMIAS E O PROBLEMA DO FRACASSO DE ESPECIALISTAS – PARTE 1

PANDEMIAS E O PROBLEMA DO FRACASSO DE ESPECIALISTAS – PARTE 1

By Edson Agatti
April 27, 2020 23:13
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Por Roger Koppl

Quais especialistas importam numa pandemia?

Antes da pandemia do COVID-19, poderíamos ter achado que “os especialistas” sabiam mais e poderiam nos guiar. Mas há inúmeras áreas de especialização. E a velocidade, escala e escopo dessa pandemia fazem com que não saibamos quais áreas de especialização são importantes ou como equilibrar considerações concorrentes. Seria um erro tentar encontrar os responsáveis pelo que pode vir a ser um caso de falha do especialista. A raiz do problema não é conhecimento falho ou maus atores. O principal problema é que estamos pedindo a especialistas e políticos que façam mais do que é humanamente possível.

Há um problema estrutural com especialistas que tem sua origem na divisão do trabalho que sustenta todos nós. Cada um de nós é especializado em uma ou algumas poucas tarefas. Fazemos certas coisas em abundância, e não o suficiente de outras. Fazemos em demasia, as poucas coisas que talvez nem desejemos, ao tempo em que fazemos muito pouco do que queremos. Tudo bem, no entanto, porque podemos fazer transações de nossas respectivas produções em excesso. Por causa da troca, cada um de nós obtém em excesso muito mais coisas que desejamos, e que poderíamos sonhar em fazer se estivéssemos em isolamento. É o sistema de especialização e comércio. Cada um de nós ocupa um lugar mais ou menos único nessa divisão do trabalho. Mas, como somos especializados, cada um de nós saberá algumas coisas, mas não outras. Estamos todos dentro de nossos silos. O barbeiro conhece cortes de cabelo, mas não de dentes. O dentista conhece os dentes, mas não os cortes de cabelo. Além da divisão do trabalho há a divisão do conhecimento.

Dado a divisão de conhecimento, cada um de nós tem determinadas expertises que poucos outros possuem. Neste sentido, podemos dizer que a divisão do trabalho é divisão de expertise. E é isso que cria problemas em um momento como este, quando somos levados a procurar o conselho dos especialistas ao tomar uma ação coletiva. Os governos do mundo hoje estão se voltando para os especialistas. Mas para quais especialistas? Quais silos de especialização são importantes?

Estamos enfrentando trade-off entre parar o vírus versus parar a economia. Epidemiologistas nos alertam para manter o distanciamento social. Eles querem colocar grande parte da economia em suspensão. Mas os economistas nos alertam sobre o desemprego e as falências com efeito dominó. Os psicólogos nos alertam que o desemprego e o isolamento promovem abuso de substâncias químicas e suicídio. E assim por diante. Quem pode juntar todas as suas estruturas concorrentes?

Infelizmente, ninguém pode ser um grande meta-especialista em grau mais elevado que os outros especialistas. O meta-especialista teria que saber tudo, e neste caso não teríamos divisão de conhecimento alguma. Todo especialista é um especialista menor, com problemas e soluções pré-fabricados que definem seus conhecimentos e se aplicam apenas a uma fatia fina da realidade. Sua experiência disciplinar torna certos problemas relevantes e prescreve certas soluções para esses problemas, e somente esses problemas. Mas isso significa que quando os políticos tomam a ação coletiva recomendada por seus especialistas, eles estão decidindo por nós “o que é e o que não é relevante para nós”. E essas “relevâncias” pré-moldadas refletirão algumas áreas de especialização e não outras, ou seja, algumas fatias da realidade e não outras.

Se os políticos ouvirem apenas os epidemiologistas, então um certo conjunto de temas será levado em consideração, e o resto será ignorado. Assim como o barbeiro recomendará um corte de cabelo e ignorará a dor de dente, o epidemiologista recomendará o isolamento geral sem considerar o que o desemprego e ociosidade podem trazer de implicação para a nossa saúde física e psicológica de forma geral. Isso significa que os políticos devem consultar epidemiologistas e economistas? Possivelmente. Mas como eles decidirão qual conjunto de interpretações pré-moldadas aplicar onde e como? Como eles podem equilibrar as considerações especialistas, em silos separados, e concorrentes? E devem colocar na balança quantos silos? Devem considerar apenas epidemiologistas e economistas? E os psicólogos? Sociólogos? Ecologistas? Antropólogos? Engenheiros?

Quando estamos tomando decisões coletivas, não conseguimos evitar esse ato impossível de equilíbrio. Inevitavelmente, os especialistas em quem confiamos estão firmemente alojados em seus diversos silos. E não há técnica acordada, racional e comprovada para encontrar algum tipo de equilíbrio entre eles. Estamos voando às cegas. O economista Nobel Vernon Smith tem nos advertido sabiamente que “a pandemia vai passar”. E assim que passar, devemos procurar maneiras de evitar a necessidade de balancear áreas de especialização concorrentes. É uma tarefa fundamentalmente impossível que requer ações arbitrárias que e são evidentemente impossíveis de justificar para satisfazer todas as pessoas de forma razoável. Devemos tentar evitar isso no futuro.

Roger Koppl é professor de finanças na Whitman School of Management da Universidade de Syracuse e diretor do Instituto Whitman para uma Sociedade Empreendedora.

Artigo original publicado pelo site Econlib

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