PANDEMIAS E O PROBLEMA DO FRACASSO DE ESPECIALISTAS – PARTE 3

PANDEMIAS E O PROBLEMA DO FRACASSO DE ESPECIALISTAS – PARTE 3

By Edson Agatti
May 6, 2020 23:19
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Por Roger Koppl

Parte 3: Os especialistas deveriam ter poder?

Nos meus últimos dois ensaios do EconLog (aqui e aqui), examinei algumas das causas de falhas dos especialistas aparentemente acontecendo na crise atual. Salientei que não sabemos como encontrar um equilíbrio entre os diferentes silos de especialistas, como por exemplo a medicina e a economia. E demonstrei que, em muitas áreas de especialização, as associações profissionais apoiadas pelo Estado reforçam a uniformidade de opinião para que não tenhamos pensamento flexível e as múltiplas perspectivas de que precisamos até com mais urgência agora do que em tempos normais. Não sei quais são os melhores modelos epidemiológicos. Além disso, ninguém conhece o melhor pacote de políticas. De qualquer forma, não podemos escapar da necessidade urgente de fazer escolhas coletivas para combater o COVID-19. Nesse momento difícil, devemos respeitar a extrema dificuldade de formular políticas. No meio de tudo isso, no entanto, devemos também refletir sobre o quão difícil tem sido usar a expertise disponível, de forma sábia, em uma crise. Existe uma maneira melhor?

Acredito que tornamos nossas vidas mais difíceis – e as colocamos em maior risco – tentando conter a expertisedentro de suas caixinhas, que são oficialmente reconhecidas e controladas pelos próprios especialistas que estão abrigados dentro delas. Refiro-me ao “modelo de especialistas” de certificação, educação profissional e educação continuada que descrevi no ensaio anterior desta série. Quando a expertise é organizada em organizações profissionais apoiadas pelo Estado, como a Associação Médica Americana (AMA), isto tende a reforçar a ortodoxia. E isso significa um pensamento menos maleável, flexível e adaptável. Significa menos ajustes e mais doutrina. Oops.

O modelo de especialista tem como premissa a visão de que o conhecimento é hierárquico. Começa no topo com a ciência e desce em cascata para níveis cada vez mais baixos da hierarquia do conhecimento. Meros praticantes não devem questionar a elite do conhecimento. Mas questionar é justamente o que precisamos em crises. Em seu ensaio, “O que é ciência?” Richard Feynman reassaltou: “A ciência é a crença na ignorância dos especialistas”. Quando damos poder aos especialistas, incluindo o poder de decidir quem são os especialistas, sufocamos a ciência. A premissa de uma hierarquia rígida de conhecedores está equivocada. O conhecimento que precisamos em tempos normais e em tempos de crise está distribuído. Está lá fora em você e eu e em todos os nossos hábitos, práticas e experiências. Não é um conjunto de instruções e doutrinas vindas lá do alto. Surge por si próprio de nossas muitas interações descentralizadas.

Vamos dar um exemplo. A pandemia produziu uma escassez de “equipamentos de proteção individual” (EPI), como máscaras e vestimentas. O que podemos fazer? Uma solução muito útil surgiu de uma empresa relativamente pequena em Battelle, Ohio. Eles possuem uma máquina que pode limpar grandes quantidades de EPI de forma muito rápida. O conhecimento de como fazê-lo não veio da investigação científica, mas da ação empreendedora. E, no entanto, enquanto escrevo, a elite do conhecimento da FDA “autorizou Battelle, com sede em Columbus, a esterilizar apenas 10.000 máscaras cirúrgicas em Ohio por dia, apesar de sua capacidade de esterilizar até 160.000 máscaras por dia em Ohio”. A hierarquia oficial do conhecimento está reprimindo os ajustes e adaptações de que precisamos para improvisar para sairmos dessa bagunça.

Essa qualidade distribuída de conhecimento segue sua origem na divisão do trabalho. Como eu disse no primeiro ensaio desta série, a divisão do conhecimento é o outro lado da divisão do trabalho. Mas isso significa que não é simplesmente uma hierarquia ditada lá do alto. É emergente e em evolução. Não cai em cascata, e sim borbulha para cima.

Considere os respiradores. No dia 24 de março, a FDA suspendeu muitas das restrições impostas aos ventiladores. Os hospitais tinham sido restritos ao uso apenas de “ventiladores aprovados pela FDA”. A suspensão das restrições revela a loucura de fingir que a elite do conhecimento pode decidir previamente qual equipamento médico deve ser o aceitável. Assim como eles não poderiam prever a pandemia atual, eles não podem prever os muitos detalhes idiossincráticos de tempo e lugar que poderiam transformar tais regulamentos considerados sensatos, em regulamentos considerados uma loucura e que trazem risco de vida. Se, em primeiro lugar, não houvessem essas restrições, quantos novos respiradores de emergência poderiam ter chegado bem antes em nossos hospitais? Em vez disso, vimos “compartilhamento de respiradores”. E como podemos ter certeza de que não restam outras restrições que também devam ser suspensas? Você ainda precisa da aprovação da FDA; só acontece que a FDA aprova mais coisas.

Precisamos de um caminho melhor. Precisamos de um sistema resiliente em que o conhecimento local seja fornecido pelas autoridades locais de tomada de decisão. Mas como a gente chega lá? Por termos um sistema hierárquico e relativamente controlado, os mercados não tiveram muitas oportunidades de elaborar o tipo de instituições e arranjos que precisamos ao escolher entre especialistas. Se simplesmente derrubarmos o modelo de especialista, ficaremos sem orientação. Devemos, portanto, começar a trabalhar na difícil tarefa de aprender a dispensar o modelo do especialista e devolver poder e energia ao empreendedorismo.

Roger Koppl é professor de finanças na Whitman School of Management da Universidade de Syracuse e diretor do Instituto Whitman para uma Sociedade Empreendedora.

Artigo original publicado pelo site Econlib

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