PRIORIDADES DO ESTADO, E NÃO “CAPACIDADES” ESTATAIS

PRIORIDADES DO ESTADO, E NÃO “CAPACIDADES” ESTATAIS

By Edson Agatti
June 1, 2020 23:28
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blind man



Por Bryan Caplan

Nos últimos anos, os cientistas sociais passaram a se alicerçar com afinco na “capacidade do Estado” para explicar a riqueza das nações. Por que alguns países prosperam? Porque eles têm grandes capacidades estatais. Por que outros não desenvolvem? Porque eles têm fraca capacidades estatais. O que os países que precisam desenvolver têm de fazer para prosperar? Crie capacidades estatais, é claro.

Muitos desses mesmos cientistas sociais veem o coronavírus como uma grande justificativa de suas pesquisas. Quais países estão lidando bem com o coronavírus? Aqueles com boas capacidades estatais. Quais países foram devastados? Aqueles com capacidades estatais ruim. Como podemos resolver nossa crise atual? Novamente, desenvolva a capacidade do estado.

Há dois anos, critiquei fortemente a tal moda das capacidades estatais. Estudos empíricos questionáveis e fracos à parte, toda a literatura é conceitualmente confusa. Mas a crise atual me convenceu de que fui até generoso demais. Como? Porque a crise do coronavírus mostra claramente que as democracias ocidentais têm uma gigantesca capacidades estatais. Vejam só os músculos desses governos! Eles não somente arrecadaram e gastaram sem esforço alguns trilhões de dólares. Eles fecharam com facilidade todas as suas atividades “não essenciais”. Em questão de semanas, eles por acaso desempregaram diversas dezenas de milhões de trabalhadores, fecharam milhões de empresas e praticamente selaram suas fronteiras para o comércio e as viagens. Após esse impressionante exercício de poder, não vejo como você poderia atribuir, antes desta crise com justiça, qualquer deficiência a estes governos por falta de capacidade do Estatal. A impressionante capacidade destes estados é algo inacreditável.

Por que, então, a maioria das democracias ocidentais parece serem tão incompetentes ao lidar com a situação? Talvez o pior flagrante de todos foi o governo federal dos EUA ter gastado mais de dois trilhões de dólares em ajuda, mas quase nada em testes ou pesquisas.* Como resumiu Alex Tabarrok:

Ao suprimir o vírus, também economizaríamos com custos médicos. (O foco nos respiradores talvez tenha sido exagerado, uma vez que os respiradores não garantem a sobrevivência – é melhor seria que fazer parar com que as pessoas que precisassem de respiradores.) Assim também salvaríamos vidas. Portanto, os benefícios de um programa de teste em massa são inequívocos. No entanto, não há financiamento direto para nada do tipo na conta da CARES de $ 2,2 trilhões, o que é impressionante. Aqui está Austan Goolsbee:

Nós literalmente colocamos redução de impostos para varejistas e restaurantes expandirem sua capacidade, mas nenhum dinheiro para a produção de mais testes para COVID.

Paul Romer também se pronunciou:

Temos uma crise econômica porque não é seguro para as pessoas trabalharem ou consumirem. Nosso Congresso acaba de aprovar uma lei que gastará US $ 2,2 trilhões para lidar com a crise. Alguém pode identificar qualquer gasto neste projeto de lei dedicado a fazer com que seja mais seguro as pessoas trabalharem e consumirem?

O que está dando errado? Simples: apesar de sua fantástica capacidade estatal, o governo dos EUA tem prioridades estatais absurdamente incoerentes! Em vez de desperdiçar trilhões em ajuda mal direcionada, o governo dos EUA poderia ter gasto algumas centenas de bilhões em testes e pesquisas de vacinas. Melhor ainda, poderia ter oferecido centenas de bilhões em prêmios pelo progresso nessas áreas – prêmios abertos para que qualquer pessoa da Terra pudesse ganhar.

Mas então, por que isso não aconteceu? Simples: porque os líderes políticos ​​de praticamente todos os países são irresponsáveis, desorganizados, numerosos, impulsivos e emocionais. Culpar suas falhas pela “falta de capacidade do Estado” é como culpar o aprisionamento de Bill Cosby por “falta de capacidade financeira”. Cosby está preso porque é um estuprador em série, e não porque não tinha dinheiro para contratar um bom advogado. Quando seus recursos são super abundantes, a principal explicação que resta para o seu fracasso são as suas próprias, e péssimas escolhas.

O que quero dizer: por uma questão de lógica, o sucesso e o fracasso dependem de dois fatores.

Fator 1: O montante de recursos que você possui – sua “capacidade”.

Fator 2: Como você escolhe usar esses recursos – suas “prioridades”.

Isso não é óbvio? É para mim. Mas acho que nunca ouvi um fã de pesquisa sobre capacidades estatais reconhecer esse ponto óbvio, muito menos tentar julgá-lo de maneira justa. Acho que nunca ouvi um fã dizer: “Pode-se dizer que alguns governos fracassam porque desperdiçam os recursos que seriam mais do que suficientes para resolverem seus problemas. E usando esta nova métrica de desperdício… ” Também nunca ouvi um fã dizer: “Pode-se dizer que alguns governos teriam sucesso se simplesmente revisassem suas prioridades. Mas usando um novo conjunto de dados sobre esta  prioridade de revisões… “Estou tentado a dizer que os apelos às capacidades estatais são tautológicas, mas mesmo as tautologias estão meia boca.

O cerne da confusão é: quando alguém não faz X, frequentemente concluímos que: “Ele não consegue fazer X.” Meus amigos, isso é um total salto de lógica. Sim, talvez a pessoa em questão realmente não consiga executar o X. Por outro lado, talvez ele tenha simplesmente não dado prioridade ao X. A única maneira de realmente saber, é observar o que acontece quando a pessoa em questão faz de X sua prioridade absoluta. Na forma de slogan: “Não consegue implica em não fazNão faz não implica em não consegue.”

O mesmo vale para organizações, inclusive os governos. A União Soviética não conseguiu cultivar comida suficiente para alimentar seu povo. Isso não implica, no entanto, que a União Soviética não tenha capacidade para fazê-lo. A história, de fato, é que o governo soviético priorizou com obstinação o poderio militar sobre a alimentação civil.

E agora? No mínimo, precisamos auditar toda a literatura sobre capacidades estatais. Até que ponto os problemas que esta atribui às “capacidades estatais” podem ser atribuídos às “prioridades do estado”? A menos que miraculosamente descubramos que a capacidade, e não as prioridades, explica 100% de todo o desempenho ineficiente do governo, o próximo passo é reduzir os numerosos e simplistas e pedidos de “aumentar a capacidade do estado” – e substituí-los por pedidos de melhorar as prioridades do estado. Em vez de fingir que a crise do coronavírus de alguma forma confirma tudo o que eles estão reivindicando, este é um momento para os fãs da capacidade Estatal se envolverem em um exame de consciência. As democracias ocidentais definitivamente demonstraram sua monstruosa capacidade. Mas de que serve ter esta monstruosa capacidade nas mãos de demagogos míopes e sedentos por poder?

Há uma ótima cena em Kill Bill, em que Vernita Green diz à Noiva: “Você está sendo mais racional do que Bill me levou a acreditar que você seria capaz”. E a Noiva responde: “É falta de misericórdia, compaixão e perdão que eu não tenho; e não racionalidade.” Na próxima vez em que um pesquisador perceber um desempenho ruim do governo e culpar a “falta de capacidade do Estado”, diga a eles: “Talvez sejam boas prioridades que lhe faltam, e não capacidade”.

Então me diga como eles respondem, porque eu realmente gostaria de saber.

*Sim, um projeto de lei adicionou US $ 25 bilhões para pesquisas, mas ainda é ínfimo e tardio.

Artigo original publicado no site Econlib.

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