Quando a Sears usou o mercado para combater Jim Crow

Quando a Sears usou o mercado para combater Jim Crow

By David Maycon
July 27, 2020 16:55
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black white hands



Por Brittany Hunter

Depois de 125 anos nos negócios, a Sears abriu pedido de falência, e deve em breve fechar suas portas para sempre. Com isso provocou fortes emoções, já que a Sears foi parte integral de toda a história comercial americana. Mas assim como a Blockbuster e a Toys R Us, está na hora da Sears ser incluída na destruição criativa, e liberar caminho para novos e melhores serviços.

A Sears não será esquecida tão brevemente. Mas assim como nós elogiamos esse expoente do capitalismo americano, nós devemos também celebrar uma de suas conquistas menos conhecidas: o uso do mercado para combater as leis de Jim Crow.

 Depois da guerra 

Desde meados do final dos anos de 1800, a Sears conseguiu fazer com que o seu nome fosse reconhecido como a marca da classe média. Pela primeira vez, uma nova classe de pessoas era apta a aproveitar modernos eletrodomésticos e mobília, por um preço ao seu alcance. E ainda melhor, esses bens eram enviados diretamente à porta de suas casas. Enquanto é amplamente reconhecido que o catálogo da Sears fez com que o “sonho americano” da classe média americana se tornasse mais acessível a uma maior gama de pessoas, existe um pedaço da história que é frequentemente negligenciado.

No final do século 19, o Sul estava completamente devastado, não apenas pela Guerra Civil, mas também pelas políticas de reconstrução colocadas em prática dali em diante. Em sua especialidade, a intromissão do Governo Federal no pós guerra deixou o Sul mais endividado do que nunca. A escravidão pode até ter sido abolida, mas a era de Jim Crow desencadeou a disseminação da segregação, criando uma vasta divisão entre americanos brancos e negros.

A história nos conta sobre a brutalidade e o patente racismo que se espalhou através do Sul, que agora era “separado mas igual”. Linchamentos, espancamentos, e várias outras atrocidades aterrorizaram a população negra, fazendo com que muitos tivessem medo de deixar suas casas para fazer simples tarefas tais como comprar mantimentos ou caminharem sozinhos em vizinhanças não receptivas.

Como o tabloide Washington Post noticiou:


“antes do advento dos catálogos de pedidos por correio, sulistas negros de zonas rurais tipicamente apenas tinham a opção comprar em lojas de departamento administradas por brancos – muitas das vezes administradas pelas mesmas pessoas dos locais onde eles trabalhavam como arrendatários. Esses donos de lojas frequentemente determinavam o que os afro-americanos poderiam comprar ao limitar até quanto crédito eles poderiam estender.”


Em muitas instâncias, os donos das lojas se recusavam a vender itens para seus clientes negros até que eles tivessem certeza de que os demais clientes brancos tivessem completado as suas compras. E frequentemente, clientes negros apenas tinham acesso a itens de menor qualidade. No ensaio da historiadora Elizabeth Hale, “Jumpin’ Jim Crow: Southern Politics from Civil War to Civil Rights” (Algo próximo de “Os Pulos de Jim Crow: As Políticas Sulistas da Guerra Civil até os Direitos Civis”, em tradução livre), ela escreve:

“Um homem negro que necessitava de roupas recebia uma camiseta ‘boa o suficiente para um escuro usar’ enquanto uma família negra de condições precárias poderia conseguir apenas a menor quantidade de farinha.”

O mercado sulista estava desesperado por alternativas para toda a discriminação que ocorria nas lojas de departamento locais, e por sorte, o catálogo da Sears Roebuck preencheu essa demanda.

Naqueles tempos, catálogos de pedidos por correio foram tão revolucionários quanto a entrega em dois dias da Amazon Prime é hoje. E isso não só fez com que a Sears provesse todos as necessidades e mantimentos básicos, como com que também provesse uma alternativa para os consumidores negros que temiam serem maltratados em público – uma bastante radical noção na era de Jim Crow.


Capitalismo: O Grande Equalizador


Previamente ao ano de 1893, famílias de áreas rurais não podiam receber correspondências diretamente em suas casas. Invés disso, essas famílias eram forçadas a viajarem longas distâncias para pegarem suas correspondências diretamente em uma agência dos correios. Isso obviamente demonstrou-se ser um problema para inúmeras famílias negras, já que ir até uma dessas agências centrais traziam risco de humilhações e outros perigos. Claro, isso poderia não ter sido um problema tão grande se o Governo Federal tivesse permitido a competição sobre os correios. Mas desde que o US Postal Service (Serviço Postal americano) criou um monopólio sobre o transporte de correspondências, havia pouco que poderia ser feito para remediar esse problema sem que o Governo Federal promulgasse uma lei.

Após o Congresso passar a Lei de entrega rural gratuita (Rural Free Delivery Act), tudo isso mudou. A companhia sediada em Chicago era finalmente capaz de enviar os produtos da Sears para os lares das famílias rurais sulistas com facilidade. E isso fez toda a diferença no mundo.

Como Louis Hyman, professor adjunto de história da Cornell University tuitou na última semana, “na minha aula de história do consumo, eu ensino sobre a #Sears, mas o que muitas pessoas não sabem é sobre quão radical o catálogo foi na era de Jim Crow.”

A Sears tinha uma política na qual eles aceitariam qualquer pedido que eles recebessem, independente do formato. Isso significava que clientes não estavam estritamente limitados a usarem um meio oficial de pedidos. E como muitos sulistas negros não podiam a época ler ou escrever, isso foi especialmente muito útil. Contanto que você pudesse rabiscar em um pedaço de papel que você precisava de um par de macacões de tamanho grande, e pago o preço anunciado, a Sears te enviaria o que você precisava. O Tabloide The Bitter Southener comentou sobre essa política, dizendo, “...mesmo se estivesse escrito em um inglês ruim, ou quase ilegível, os macacões seriam enviados.”

Desde que pedir através dos correios ofereceu aos consumidores o anonimato, a Sears praticamente não tinha ideia alguma sobre quais de seus consumidores eram negros e quais eram brancos, garantindo com que cada um de seus consumidores fossem tratados de forma igualitária. Então, contanto que você tivesse dinheiro para pagar por um item, o item seria enviado até você. Mas isso ajudou mais do que apenas com roupas e eletrodomésticos.

Poucas pessoas se lembram que a Sears costumava vender também inclusive casas. Após enviar os materiais via correio, os compradores poderiam montar essas casas por conta própria. E para famílias negras buscando por suas próprias casas no Sul segregado, isso ajudou a contornar o escrutínio daqueles que se recusavam a vender ou construir casas para qualquer um que não fosse branco.

A Ameaça da Competição


Mesmo que muitos proprietários de lojas do Sul tratassem seus clientes negros de forma terrível durante esse tempo, eles ainda dependiam de seus negócios para proverem seu próprio sustento. E com mais consumidores agora escolhendo comprar seus itens da Sears, os donos de lojas estavam se sentindo ameaçados. Mas invés de mudarem seus comportamentos e tentarem competir com a Sears, eles tomaram uma abordagem diferente.

Começaram a circular rumores, que diziam tanto a Sears, quanto seu novo competidor, o Montgomery Ward, eram pertencentes a homens negros. Essa foi uma clara tentativa de dissuadir os consumidores de comprarem de seus catálogos. Eventualmente, a afronta se tornou tão fora de controle que donos de lojas começaram a organizar “queimas de livros” dos catálogos todo fim de semana. Eles chegaram a ir tão longe a ponto de oferecer $50 dólares para a pessoa que mais trouxesse catálogos desses para as fogueiras – vultosa quantia no início dos anos 1900.

A situação se aprofundou rapidamente. De acordo com o tabloide Washington Post, “Em resposta, a Sears publicou fotos dos seus fundadores para provar que eles eram brancos, enquanto ofereceu ainda uma recompensa de $100 dólares em troca do nome da pessoa que começara um rumor que havia criado a confusão sobre a ancestralidade preta e branca.”

Não apenas estava a Sears provendo opções àqueles que queria evitar os proprietários de lojas racistas, como estava também dando um duro golpe no racismo em si, criando competição. Se lojas de pequenas cidades quisessem seguir praticando um reiterado racismo, consumidores que discordassem com isso agora tinha melhores opções.

Para ser completamente justo com a história, a Sears ainda capitulou alguns dos aspectos de Jim Crow após ter aberto uma loja de departamento em Atlanta, Georgia. Nessa loja, empregados negros eram limitados a funções como zeladores, nos armazéns ou em serviços alimentícios. De toda forma, ao contrário da maioria das lojas no Sul, a Sears não segregava os seus consumidores. Ambos os consumidores negros e brancos eram autorizados a comprarem juntos, auxiliando a derrubar as barreiras que permaneceram tão fortemente durante essa época.

Então enquanto nós damos adeus a Sears, não devemos nos esquecer o papel que a empresa desempenhou em combater as leis de Jim Crow durante um tanto tumultuoso tempo da história americana. Ao oferecer dignidade e um certo grau de normalidade aos negros sulistas, a empresa ajudou a reconstruir o Sul em uma mais tolerante e receptiva sociedade.

 

Artigo original publicado no Foundation for Economic Education - FEE.

Este artigo foi traduzido por David Maycon, que é acadêmico do curso de Direito da Pontifícia Universidade Católica de Goiás, membro do Instituto de Estudos Avançados em Direito (IEAD), Coordenador do Students for Liberty Brasil, membro da Liga Acadêmica de estudo em Direito da PUC Goiás (LED), estagiário do Ministério Público de Goiás e tradutor de artigos do Hayek College. 

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