Quem foi Friedrich August von Hayek - 1899-1992

Quem foi Friedrich August von Hayek - 1899-1992

By Edson Agatti
July 31, 2020 10:24
1 Comments
Hayek Laugh



Se algum economista do século XX foi um homem da Renascença, foi Friedrich Hayek. Ele teve contribuições fundamentais para a teoria política, a psicologia e a economia. Em uma área em que a relevância das ideias é frequentemente eclipsada por expansões sobre uma teoria inicial, muitas de suas contribuições são tão notáveis que ainda são lidas 50 anos após terem sido publicadas. Hoje, por exemplo, muitos estudantes de economia releem seus artigos sobre economia e conhecimento das décadas de 1930 e 1940, extraindo insights que alguns economistas posteriores ainda não entenderam totalmente. Não seria nenhuma surpresa se uma minoria substancial dos economistas ainda ler e aprender com seus artigos no ano 2050. Em seu livro Commanding Heights, Daniel Yergin disse que Hayek é o economista mais importante da segunda metade do século XX.

Hayek foi o defensor mais conhecido da chamada Escola Austríaca. Na verdade, foi o único membro recente da escola austríaca que, de fato, nasceu e cresceu na Áustria. Após a I Guerra Mundial, Hayek obteve seus doutorados em Direito e Ciência Política na Universidade de Vienna. Posteriormente ele, junto com outros jovens economistas como Gottfried Haberler, Fritz Machlup e  Oskar Morgenstern, uniram-se ao seminário privado de Ludvig von Mises – o equivalente austríaco ao “Círculo de Cambridge” de John Maynard Keynes. Em 1927, Hayek se tornou diretor do recém-formado Austrian Institute for Business Cycle Research. No início da década de 1930, à convite de Lionel Robbins, ele se transferiu para a London School of Economics, onde permaneceu por 18 anos. Ele se tornou cidadão britânico em 1938.

Boa parte da obra de Hayek nas décadas de 1920 e 1930 focou-se na teoria austríaca dos ciclos de negócios, em teoria do capital e teoria monetária. Hayek percebeu uma conexão entre as três. O grande problema para qualquer economia, argumentou ele, é como as ações das pessoas se coordenam. Ele notou, da mesma forma que Adam Smith, que o sistema de preços – o livre mercado – fazia um trabalho notável de coordenar as ações das pessoas, mesmo que essa coordenação não fosse a intenção de ninguém. O mercado, disse Hayek, era uma ordem espontânea. Por “espontânea”, Hayek queria dizer “não planejada” – o mercado não era planejado por ninguém, mas evoluía lentamente como resultado das ações humanas. Mas o mercado não funciona perfeitamente. Indagava Hayek, o que faz com que o mercado falhe em coordenar os planos das pessoas, gerando, às vezes, desemprego em massa?

Uma causa, disse ele, eram aumentos na oferta monetária pelo Banco Central. Esses aumentos, argumentou em Prices and Production, reduziam as taxas de juros tornando o crédito artificialmente barato. Então, os empresários faziam investimentos de capital que não teriam feito caso entendessem que estavam recebendo um sinal de preços distorcido do mercado de crédito. No entanto, os investimentos de capital não são homogêneos. Investimentos de longo prazo são mais sensíveis às taxas de juros do que os de curto prazo, assim como títulos são mais sensíveis às taxas de juros do que os de curto prazo. Portanto, concluiu ele, taxas de juros artificialmente baixas não fazem apenas com que o investimento seja artificialmente alto, mas também geram “malinvestimento” – muito investimento em projetos de longo prazo em relação aos de curto prazo, transformando expansões em recessões. Hayek considerava a recessão como um ajuste saudável e necessário. Para evitar as recessões era preciso, portanto, evitar as expansões que as causavam.

Hayek e Keynes construíram seus modelos de mundo ao mesmo tempo. Eles conheciam as posições um do outro e debatiam as diferenças. A maioria dos economistas acredita que a General Theory of Employment, Interest and Money (1936) de Keynes venceu o debate. Hayek, até seus últimos dias, nunca acreditou nisso, e nem os outros membros da Escola Austríaca. Hayek acreditava que as políticas keynesianas para combater o desemprego inevitavelmente gerariam inflação, e que, para manter o desemprego baixo, o banco central teria que aumentar a oferta monetária cada vez mais rápido, gerando um aumento paulatino da inflação. O pensamento de Hayek, que ele expressou ainda em 1958, é hoje aceito pelos economistas do mainstream.

No final da década de 1930 e início da década de 1940, Hayek dedicou-se ao debate de se o planejamento social poderia funcionar. Segundo ele, não poderia. Os economistas socialistas pensavam que o planejamento socialista poderia funcionar, argumentava Hayek, por que pensavam que os planejadores poderiam analisar dados econômicos, alocando recursos de acordo. Mas Hayek destacou que os dados não eram “dados” (ou, estavam prontos). Os dados não existem, nem podem existir, em uma única mente ou grupo de mentes. Em vez disso, cada indivíduo conhece recursos particulares e oportunidades potenciais para utilizá-los, coisa a que os planejadores centrais nunca teriam acesso. A virtude do livre mercado é que ele maximiza a chance do indivíduo de usar a informação que tem. Em resumo, o processo de mercado gera os dados. Sem ele, praticamente não existem dados.

Os economistas do mainstream e até mesmo muitos economistas socialistas hoje aceitam o argumento de Hayek. O economista Jeffrey Sachs da Columbia University notou: “se você perguntar a um economista em que é bom investir, que indústrias irão crescer, onde a especialização ocorrerá, o histórico é muito ruim. Economistas não coletam a informação da mesma forma que os empresários. Toda vez que a Polônia pergunta: “bem, o que conseguiremos produzir?” Eu respondo: “eu não sei.” 

Em 1944, Hayek atacou o socialismo por outro ângulo. Desde sua posição estratégica na Áustria, Hayek observara a Alemanha de forma atenta nas décadas de 1920 e 1930. Após se mudar para a Inglaterra, notou que muitos socialistas britânicos defendiam algumas das mesmas políticas em prol do controle governamental sobre a vida das pessoas adotadas na Alemanha na década de 1920. Ele também tinha notado que os nazistas, na verdade, eram nacional-socialistas; isto é, nacionalistas e socialistas. Então, Hayek escreveu O Caminho da Servidão para alertar os cidadãos britânicos quanto aos perigos do socialismo. Seu argumento básico era que o controle governamental da vida econômica equivale ao totalitarismo. “O controle econômico não é apenas o controle de um setor da vida humana que pode ser separado do resto”, escreveu ele, “é o controle dos meios para todos os nossos fins.”

Para a surpresa de alguns, John Maynard Keynes elogiou o livro. Na contracapa, Keynes teria escrito: “em minha opinião, é um grande livro... Moral e filosoficamente, concordo com quase tudo; e não apenas concordo, como fui profundamente impactado por ele.”

Embora Hayek tivesse escrito O Caminho da Servidão para o mercado britânico, o livro vendeu bem nos Estados Unidos - a Reader’s Digest até lançou uma versão condensada dele. Com ele, Hayek se consolidou como o principal liberal clássico do mundo; hoje, ele seria chamado de libertário ou liberal de mercado. Poucos anos depois, junto com Milton Friedman, George Stigler e outros, formou a Mont Pelerin Society, permitindo que os liberais clássicos pudessem se encontrar a cada dois anos, apoiando-se moralmente no que parecia ser uma causa perdida.

Em 1950, Hayek se tornou professor de ciências sociais e morais na University of Chicago, onde permaneceu até 1962. Durante aquele período, trabalhou em metodologia, psicologia e teoria política. Em metodologia, Hayek atacou o “cientificismo” – a imitação, nas ciências sociais, dos métodos das ciências físicas. Segundo ele, como as ciências sociais, incluindo a economia, estudam pessoas e não objetos, só podem fazê-lo ao avaliar os propósitos humanos. Na década de 1870, a EA já tinha mostrado que o valor de um bem deriva de sua habilidade de satisfazer propósitos humanos. Hayek estava argumentando que os cientistas sociais de modo geral deveriam levar em conta os propósitos humanos. Seus pensamentos na questão estão condensados na obra The Counter-Revolution of Science: Studies in the Abuse of Reason. Em psicologia, Hayek escreveu The Sensory Order: An Inquiry into the Foundations of Theoretical Psychology.

Em teoria política, Hayek mostrou sua visão do papel apropriado do governo em seu livro The Constitution of Liberty. Na verdade, era uma visão expandida do papel apropriado do governo frente ao defendido pela maioria dos liberais clássicos. Ele discutiu os princípios da liberdade, baseando neles suas propostas políticas. Sua principal objeção à tributação progressiva, por exemplo, não era a de que ela gerava ineficiência, mas que violava a igualdade perante a lei. No posfácio do livro, Why I am not a Conservative, Hayek distingue seu liberalismo clássico do conservadorismo. Entre seus argumentos para rejeitar o conservadorismo estavam: (i) os ideias morais e religiosos não devem ser “objetos de coerção” e (ii) o conservadorismo é hostil ao internacionalismo e tende a um nacionalismo estridente.

Em 1962, Hayek retornou à Europa como professor de Economia na Universidade de Freiburg em Breisgrau, Alemanha Ocidental, e lá permaneceu até 1968. Ele, então, ensinou na University of Salzburg na Áustria até sua aposentadoria em 1977. Suas publicações se reduziram substancialmente no início da década de 1970. Em 1974, ele compartilhou o prêmio Nobel com GUNNAR MYRDAL: “por seu trabalho pioneiro em teoria monetária e flutuações econômicas, como por sua análise profunda da interdependência dos fenômenos econômicos, sociais e institucionais.” Esse prêmio pareceu dar nova vida a ele, tanto que voltou a publicar.

Muitas pessoas se tornam conservadoras na medida em que envelhecem. Hayek ficou mais radical. Embora tivesse favorecido o banco central por grande parte de sua vida, na década de 1970, começou a defender a desnacionalização do dinheiro. Instituições privadas que emitiam moedas concorrentes, argumentava, teriam um incentivo a manter o poder de compra de suas moedas. Os consumidores escolheriam entre elas. Se acabariam por optar pelo padrão-ouro, Hayek preferia não opinar. Com o colapso do COMUNISMO na Europa Oriental, alguns consultores econômicos consideraram o sistema monetário de Hayek como um substituto para sistemas fixos. 

Hayek ainda estava publicando aos seus 89 anos de idade. Em seu livro, The Fatal Conceit, trouxe insights profundos para explicar a atração dos intelectuais pelo socialismo e, então, refutou a base de suas crenças.
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Obras selecionadas

1931. “Richard Cantillon.” Trad. por Micheál Ó Súilleabháin in the Journal of Libertarian Studies 7, no. 2 (1985): pp. 217–247. Disponível on-line em: http://www.econlib.org/library/Essays/JlibSt/hykCnt1.html.

1935. Prices and Production.  New York: Augustus M. Kelley, 1975.

1937. “Economics and Knowledge.” Economica, n.s., 4 (Fevereiro): pp. 33–54. Reimpresso em James M. Buchanan and G. F. Thirlby, eds., L.S.E. Essays on Cost. London: Weidenfeld and Nicolson, 1973. Disponível on-line em: http://www.econlib.org/library/NPDBooks/Thirlby/bcthLS3.html.

1939. “Price Expectations, Monetary Disturbances, and Malinvestments.” In Hayek, Profits, Interest, and Investment. New York: Augustus M. Kelley, 1975.

1944. The Road to Serfdom. Chicago: University of Chicago Press.

1945. “The Use of Knowledge in Society.” American Economic Review 35 (Setembro): pp. 519–530. Disponível em: http://www.econlib.org/library/Essays/hykKnw1.html.

1948. Individualism and Economic Order. Chicago: University of Chicago Press.

1952. The Counter-Revolution of Science: Studies on the Abuse of Reason. Glencoe, Ill.: Free Press.

1960. The Constitution of Liberty. Chicago: University of Chicago Press. Chicago: Henry Regnery, 1972.

1973. Law, Legislation, and Liberty. Chicago: University of Chicago Press.

1976. Denationalization of Money. London: Institute of Economic Affairs.

1977. Prefácio de Economics as a Coordination Problem: The Contributions of Friedrich A. Hayek by Gerald P. O’Driscoll Jr. Kansas City: Sheed, Andrews, and McMeel.

1988. The Fatal Conceit. Chicago: University of Chicago Press.

1995. Introdução à obra Selected Essays on Political Economy by Frédéric Bastiat. Traduzido do francês por Seymour Cain. Editado por George B. de Huszar. Princeton: Van Nostrand, 1995. Disponível on-line em http://www.econlib.org/library/Bastiat/basEss0.html#Introduction,byF.A.Hayek.

Artigo original publicado no Econlib

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Comentários

  • Roberto Pantoja (não verificado)

    Excelente artigo e homenagem…

    Excelente artigo e homenagem ao grande Hayke

    qui, 06/08/2020 - 00:21

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